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A exposição que não trata Lina Bo Bardi como memória

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Crítica sobre a exposição The insides are on the outside / O interior está no exterior. Casa de Vidro / Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, São Paulo, de 05 de abril a 26 de maio de 2013.

“Trazer a vida de volta a Casa de Vidro”. A afirmação feita pelo curador suíço Hans Ulrich Obrist, na abertura da exposição “the insides are on the outside / o interior está no exterior”, sintetiza sua proposta de ocupação da residência projetada pela arquiteta Lina Bo Bardi.

Tal como explicitado em seu título, a exibição parte da relação de transparência entre a interioridade da residência que Lina Bo projetou para si e seu marido, o crítico e historiador Pietro Maria Bardi, e a exterioridade composta pela densa e vigorosa vegetação tropical. A exposição ocupa a casa e seu terreno, expandindo-se pela cidade por meio das instalações implantadas no Sesc Pompéia.

As obras são, em primeira análise, intervenções site specific, ao serem proposições que se fundamentam e se constituem de acordo com as características do lugar ao qual se inserem. Nessa mostra, os edifícios são os parâmetros iniciais a serem reinterpretados e reinventados por meio da arte contemporânea. Tornam-se palco para especulações artísticas, provocador de fricções, possibilitador de sensações, propulsor de novas ideias.

Contudo, esse conceito se amplia a partir do que Obrist destaca em seu texto curatorial: “Os participantes foram convidados a uma imersão no mundo de Lina Bo Bardi”. O conjunto de obras vai além de um retrato da maneira como os artistas reagem ao contexto físico e ao desenho arquitetônico da Casa de Vidro e do Sesc. Cria-se uma rede de relações estruturada na busca por novas interpretações do espírito de toda a obra de Bo Bardi, enquanto agente cultural no Brasil pós-guerra. Os aspectos físicos do local se mantêm como pressupostos, entretanto as tramas que estruturam as proposições ampliam-se com narrativas e conceitos provenientes da figura da arquiteta, impulsionando suas potencialidades estéticas e sua força enquanto arte.

As estratégias para a apropriação dessas questões são variadas. Por um meio estritamente sonoro, sob o pilotis da Casa de Vidro, Paulo Mendes da Rocha conta a história da chegada de Bo Bardi ao Brasil. No salão da Casa, um conjunto de intervenções artísticas para a mostra mescla-se à profusão dos objetos e obras de arte que evocam as memórias e representam a construção da narrativa própria dos Bardi. Neste grande aposento, destacam-se o aroma e o som de fundo – “Lina, va fare un caffè” -, na obra de Cildo Meireles, reconstituindo a frequente cena do casal. Ali também vemos as caricaturas feitas por Alexander Calder, a proposta feita pela dupla japonesa Kazuyo Sejima and Ryue Nishizawa (Sanaa) para o mobiliário da biblioteca, e o jogo de transparência e reflexão que Olafur Eliasson propõe a partir da estrutura do painel de vidro do projeto expográfico original do Masp. A exposição também ocupa a parte mais íntima da Casa com Waltercio Caldas no quarto do casal, Koo Jeong-A na cozinha e a “mobília” de Rivane Neuenschwander espalhada pela residência e mimetizada aos outros objetos. Pelo jardim, encontramos obras de Dominique Gonzalez-Foerster, Cristina Iglesias, Pedro Reyes. A obra de Ernesto Neto encontra interessante relação por entre as passarelas dos edifícios do Sesc Pompéia, polarizando a ambiência do solário com a instalação de Dan Graham.

A visita ao conjunto das obras mostra o quão bem sucedido foi Hans Ulrich Obrist na sua proposta de “Trazer a vida de volta a Casa de Vidro”. Ao apropriar-se e compreender criticamente a história de Lina Bo Bardi e a espacialidade dos edifícios, restitui-se a esses lugares sua configuração enquanto campos imaginativos para os dias atuais e para o futuro. No papel de centro irradiador para a arte contemporânea, a Casa de Vidro (e a própria figura de Lina Bo Bardi) deixa de ser tratada como um memorial para tornar-se um laboratório de proposições.

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Publicado originalmente na revista digital Arquiteturismo do portal Vitruvius, junto com vídeo e imagens de Helena Guerra
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/07.074/4711

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