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Occupy vão livre

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Nas últimas duas semanas, um dos mais significativos espaços simbólicos da cidade de São Paulo tem sido retratado como grande incômodo urbano. A série de reportagens nos jornais paulistanos, apresentando problemas que ocorrem no vão livre do Masp, abriu caminho à proposta do atual curador dessa instituição cultural de gradear o espaço com o suposto intuito de garantir segurança aos frequentadores do museu.

Em outros termos, propõe-se implantar no vão livre a lógica mais recorrente da urbe em que vivemos: quão raros são os edifícios que não  têm um muro separando-os da rua ou qualquer aparato de vigilância para distinguir aqueles com poder de acesso. O gradeamento desse espaço no centro da avenida Paulista deve ser precedido de uma pergunta:  por mais que chamemos de vão livre do Masp, este lugar singular pertence ao museu ou é um espaço público da cidade de São Paulo?

Pouco importa qualquer prolongada argumentação estruturada no “jurisdiquês”, mas sim a maneira como historicamente a população dali se apropria. Sob este aspecto, é fácil concluir que o vão livre está indissociavelmente integrado ao tecido urbano, como um espaço de livre uso dos cidadãos.

Entretanto, é possível desdobrar tal argumento por meio de uma análise restritamente arquitetônica. O edifício concebido por Lina Bo Bardi, por um aspecto, contém uma estratificação muito forte. O campo de possibilidades contido no vão livre pouco se relaciona com o pavimento de apresentação do acervo permanente, e tais ambiências também ficam apartadas do que está no subsolo. O conjunto de dois elevadores e escadas concentrado em uma das extremidades da edificação (e de escala diminuta, se comparado ao todo) limita-se a um papel quase estritamente funcional, pois não foi fruto de alguma intenção articulatória que indicasse uma integração entre as diferentes partes. Ou seja, o Masp é flexível nas relações horizontais; entretanto, ele é muito rígido nas relações verticais. O vasto chão em paralelepípedo e o grandioso teto em concreto rude distinguem com veemência o vão livre do museu.

Feita a diferenciação, pode-se declarar que o vão livre é um espaço público por excelência.

Lina Bo Bardi recorria frequentemente à figura de John Cage para denominar o vão livre como a “arquitetura da liberdade”, local liberto à recepção de diferentes sensações pelo ser humano, sendo assim um lugar privilegiado para a percepção da vida, da coletividade, da metrópole paulistana, do mundo.

Isso esclarece o porquê do que ocorre no vão livre do Masp ser tão incômodo para alguns: ele explicita a cidade onde vivemos. O espaço é um “palco” que evidencia as virtudes e os problemas paulistanos. Aquilo que as reportagens apresentam como adversidade específica do lugar são, na verdade, recorrentes dificuldades da nossa sociedade. Quantas são as calçadas que se tornaram abrigo para moradores sem oportunidade de uma moradia? Não existem pontos de tráfico de drogas por todos os lados? O vão revela o contínuo fracasso dos programas sociais de um Estado ainda incapaz de dar suporte à população. Ali, os problemas da cidade tornam-se mais difíceis de digerir.

Neste monumento nada afeito à higienização em prol da turistificação, o ato de gradear será a morte do Masp. Acabarão com a liberdade do vão livre: o vazio impregnado de possibilidades ao ser humano (o afeto, o ócio, o lúdico) e o lugar ideal onde podemos protestar contra as mazelas sociais de nossa jovem república, sem que este aparelho estatal tenha um ponto privilegiado para vigiar e impor suas proibições. Por isso, aos que se incomodam com os supostos problemas no vão livre, a maneira de contribuir para “resolvê-los” é mantê-lo aberto.

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Publicado originalmente na revista digital Minha Cidade do portal Vitruvius
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.160/4968

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