Minimalismo nos trópicos

No Leblon Offices, a implantação contém uma especificidade passível de ser notada ainda quando se está na avenida Bartolomeu Mitre: o recuo de sua fachada em 5,5 m tanto é uma resposta a uma necessidade imposta pela legislação quanto é um modo como o arquiteto sutilmente destaca seu projeto dos banais edifícios adjacentes. Recuar também é um ajuste do ângulo de visão do pedestre, afinal tal ato contém a intenção de que a frente do prédio seja melhor admirada por quem está na calçada. E não se está em frente de qualquer fachada. Reconhece-se ali a assinatura pessoal de Richard Meier.

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Leia na íntegra na AU 268 (julho 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/268/richard-meier-no-rio-de-janeiro-conheca-o-leblon-offices-371735-1.aspx

O Prédio, o Mercado e a Cidade

Há mais de meio século, a relação entre a escola paulista de arquitetura e o mercado imobiliário paulistano é restrita a casos pontuais. A boa arquitetura teve seu momento áureo na construção de edifícios residenciais nos anos 1950, estendendo-se um pouco para as décadas adjacentes – o bairro de Higienópolis que o diga. Porém, se tomarmos como parâmetro o ano de 1969, quando foi concluído o edifício da FAU-USP na Cidade Universitária, e averiguarmos a quantidade de torres de moradia construídas posteriormente na malha urbana da capital paulista que seguem os preceitos da geração intelectualmente fundada por João Vilanova Artigas, qualquer um de nós terá dificuldades de exemplificar com uma quantidade maior que a dedos nas duas mãos.

É uma constatação um tanto quanto absurda se pensarmos que é uma metrópole de mais de duas dezenas de milhões de habitantes e que dentro de si abriga uma escola arquitetônica tão notável, consagrada e, ao mesmo tempo, restrita a construir exceções na cidade.


Leia na íntegra na AU 267 (junho 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/267/una-arquitetos-projeta-huma-klabin-edificio-residencial-de-relacao-franca-371097-1.aspx

Correntezas Renovadoras

“Da celebração efêmera ao desfrute do cotidiano.” O motto proferido por Héctor Vigliecca sintetiza o intuito central dos arquitetos do Parque Radical, trecho norte do Complexo Olímpico de Deodoro. Envolto em bairros com os menores Índices de Desenvolvimento Humano do Rio de Janeiro e extremamente carentes de serviços públicos, não seria cabível que o custoso investimento fosse destinado exclusivamente às semanas das Olimpíadas e das Paraolimpíadas. O destino do projeto não pode se limitar ao usufruto dos competidores e espectadores que vem de longe, mas deve contemplar igualmente a população das cercanias que passará a ter acesso livre ao novo segundo maior parque da cidade – atrás apenas do Aterro do Flamengo. O Parque Radical dá uma inédita perspectiva de lazer e atendimento social a moradores da Zona Oeste carioca e da Baixada Fluminense.

Leia na íntegra na AU 266 (maio 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/266/a-parte-norte-do-complexo-olimpico-deodoro-com-canoagem-370379-1.aspx

Reversíveis Equipamentos

Meio templo, meio hangar. Assim, a Arena da Juventude remete, concomitantemente, ao classicismo e à indústria. Externamente, a configuração assemelha-se a de um templo grego: uma sequência de delgadas colunas metálicas circunda a área fechada do ginásio, conformando um peristilo contemporâneo. Entretanto, no seu comedimento de elementos, é possível associar o novo equipamento olímpico a um grande galpão, constituído por elementos industriais pré-fabricados, alguns deles encontráveis em catálogos de materiais de construção, e que, por fim, resultaram em uma obra de rápida montagem e execução.

Distante do epicentro do megaevento global do agosto próximo (o Parque Olímpico da Barra da Tijuca) e sem alarde na cobertura da imprensa acerca da preparação dos Jogos, há algo de surpreendente ao avistar a Arena da Juventude às margens da Avenida Brasil carioca. Para quem passa de carro, o elegante e austero edifício é um prenúncio de transformações da pouco cuidada Zona Oeste do Rio. Com projeto do escritório Vigliecca & Associados, a Arena está na parte central do Parque Olímpico de Deodoro, que também conta com o Parque Radical e os Centros Olímpicos de Hipismo e de Tiro Esportivo.

Leia na íntegra na AU 266 (maio 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/266/olimpiada-2016-arena-da-juventude-e-centro-de-hoquei-por-370306-1.aspx

Sereníssimo Refúgio

escrito com Clara Varandas Abussamra

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Reúne o material. Encaixa as peças. Monta a casa. Coloca na caçamba do caminhão. Parte da pequena fábrica nos arredores de Montevidéu. Carrega a residência por mais de uma centena de quilômetros pelas estreitas estradas uruguaias. E encontra a paisagem suavemente ondulada de Finca Aguy.

Destoando das constantes planícies campestres que predominam na geografia do Uruguai, essa região de tênues serras e pedras está sendo descoberta para o veraneio. Esse plácido cenário natural a 12 km do vilarejo mais próximo – Pueblo Éden – foi escolhido para ser o lugar de reunião de uma família argentina, que tem cada membro residindo em um diferente canto do mundo. Nesse refúgio viram a possibilidade plantar oliveiras e iniciar uma pequena produção de azeite.

Leia na íntegra na AU 265 (abril 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/265/residencia-pre-fabricada-e-montada-em-dois-dias-no-interior-do-368862-1.aspx

O professor prático

É extremamente interessante quando arquitetos com tantos notáveis projetos vão para os círculos acadêmicos a fim de transmitir sua experiência aos alunos. Costumeiramente, vê-se com bons olhos a presença de arquitetos da prática compondo a lista de membros do corpo docente de uma universidade. A priori, esta é a informação de grande valor para apresentar o arquiteto espanhol Juan Herreros, sócio-fundador do Estudio Herreros e professor das Universidades de Madri e de Columbia, em Nova York. Entretanto, a questão-chave está presente na sua afirmação: “Os projetos dos meus alunos não se parecem com o que produzo no meu escritório.” A frase é tão óbvia quanto estranha para os corpos docentes de várias faculdades de arquitetura brasileiras. Para Herreros dar aulas não é doutrinar, não é a sobreposição do desenho do professor em cima do que é feito pelo aluno. O ensino é associado ao diálogo.

Dialogo que Juan Herreros se dispôs a ter com a revista AU durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, em companhia de seus alunos da Universidade de Columbia, para a comemoração dos cinco anos do Studio X e a abertura da exposição “Lutar, Ocupar, Resistir. As alternativas habitacionais dos movimentos sociais”. Nesse conversa, Herreros enfatiza a importância da ideia de híbrido: a mescla de programas, funções, períodos históricos e classes sociais nos edifícios e cidades. Tendo projetado em locais tão diferentes quanto Coréia do Sul, Panamá, Noruega, Marrocos, Colômbia, o arquiteto espanhol também explica o que entende por prática global. Prossegue questionando a “mistificação do detalhe construtivo” e reconhecendo as virtudes da matéria industrial, o que o faz contrapor-se ao “entendimento épico da prática da arquitetura” na qual o arquiteto deve intervir em cada centímetro. Assim, Herreros alerta sobre o papel do arquiteto na contemporaneidade: projetar e construir não são o suficiente.

Leia na íntegra na AU 265 (abril 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/265/juan-herreros-sobre-o-ensino-a-pratica-e-a-cidade-370131-1.aspx

Destacar-se do solo, proteger-se do sol

À sombra de estridente polêmica ambiental que envolveu a escolha do sítio, jornais e revistas não perceberam a notável arquitetura que ali surgia. Comparada à imensidão da planície que a envolve, é comedida a dimensão da sede do campo de golfe das Olimpíadas do Rio de Janeiro. É a escala correta para uma edificação que se permite ser atravessada pela paisagem exuberante: não somente o vento que a corta livremente, mas o olhar permanece desimpedido para admirar o gramado entremeado por pequenas dunas e circundado pelo manguezal que o separa da lagoa de Marapendi. O que vemos é uma espécie de miragem da Barra da Tijuca idealizada por Lucio Costa: a planície natural a perder de vista – é verdade que em um estado menos selvagem do que o imaginado por nosso mestre – e um aglomerado de edifícios altos brotando ao longe nessa baixada.

Leia na íntegra na edição 263 da AU (fevereiro 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/263/rua-arquitetos-projeta-sede-do-campo-olimpico-de-golfe-no-367497-1.aspx

Monta, desmonta e remonta

As Olimpíadas duram uns quinze dias. Holofotes do mundo inteiro são lançados na cidade sede. Um mês após, há certa sobrevida desta animação com as Paraolimpíadas. Em seguida, acabou a festa; o palco deste mise-en-scène global precisa ser absorvido pelo cotidiano.

Se a cidade não incorporá-los, os equipamentos olímpicos se tornarão ruínas (vide Atenas). Quando a edificação perde a sua vitalidade, inevitavelmente geram-se resíduos: a obsolescência ou será da arquitetura como um todo, ou virá da desarticulação das partes convertidas em restos jogados ao relento, num vagaroso processo de decomposição em algum canto do mundo. A segunda alternativa para o fracasso da arquitetura olímpica é fazê-la desaparecer; o que, a princípio, depende do nada pacifico (nem isento de custos) ato de demolir. Como dotar uma estrutura olímpica de uma razão de existência após a cerimônia de encerramento?

A estratégia para a Arena do Futuro, no Rio de Janeiro, é de programar totalmente o seu ciclo de vida. Monta-se um ginásio que abrigará as competições de handebol e golbol dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016; findo os dois eventos, desmonta-se o edifício; e, nos meses seguintes, remonta-se, porém transfigurando-o em quatro escolas públicas municipais. Nobre e necessário destino para a tão questionável demanda estrutural do comitê olímpico: afinal, a aparente festa de todos os povos escancarou-se como o negócio e o lucro de alguns poucos, e um altíssimo custo para as populações locais. A sobriedade da estrutura da Arena carioca retrata uma consciência crítica dessa conjuntura, opondo-se ao espetáculo formal gratuito tão latente nos ginásios e estádios das Olimpíadas da década passada.

Leia na íntegra na edição 263 da AU (fevereiro 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/263/arena-do-futuro-recebera-jogos-de-handebol-na-olimpiada-e-367863-1.aspx

Todas as fichas na arquitetura

É preciso avisar de antemão: este não é um projeto feito por caridade. Nem mesmo se encaixa a definição de habitação social. De fato, a história da Casa na Vila Matilde restitui algo de elementar à arquitetura.

[…]

Cabe também acrescentar que este não é um caso de fé à profissão. Provavelmente, dona Dalva não conhece Le Corbusier. Dona Dalva não sabe dos benefícios da planta livre, nem dos outros quatros pontos para a arquitetura moderna. Dona Dalva não deve estar ciente da importância gregária do salão caramelo da FAUUSP. Pelo processo de construção, Dona Dalva não deu indícios de se importar com as condições operárias no canteiro de obras. Dona Dalva não se encanta com os hightechs, desconstrutivistas, metabolistas ou sustentáveis. Dona Dalva não aprendeu com Las Vegas. Ou seja, dona Dalva passa ao largo da intelligentsia arquitetônica, mas mesmo assim, por algum motivo, eles apostaram todas as fichas na arquitetura.

Leia na íntegra na AU 259 (outubro 2015)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/259/com-orcamento-restrito-e-terreno-exiguo-arquitetos-do-terra-e-365010-1.aspx