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A “desformalização” da arquitetura de Lina Bo Bardi

A “desformalização” do MASP

A procura por uma constatação que sintetize toda a trajetória de Lina Bo Bardi nos levará à percepção, em um sentido laudatório, de sua heterodoxia. Ao não tratar arquitetura como disciplina autônoma, viu-a como pertencente a um sistema cultural: as relações com outras atividades não são complementares, mas cerne da operação projetiva, o que a levou a problematizar certos códigos e instrumentos próprios à profissão. Neste momento, chamá-la somente de arquiteta seria um reducionismo que colocaria erroneamente em segundo plano suas incursões pelo design, crítica cultural, cenografia, curadoria, museologia, entre outras. Seu conjunto de atividades não se restringiu a um autorregramento vinculado a um ideal que lhe desse uma coerência explícita e unívoca.

Leia na íntegra na revista digital Arquitextos do portal Vitruvius
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/14.165/5063

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Occupy vão livre

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Nas últimas duas semanas, um dos mais significativos espaços simbólicos da cidade de São Paulo tem sido retratado como grande incômodo urbano. A série de reportagens nos jornais paulistanos, apresentando problemas que ocorrem no vão livre do Masp, abriu caminho à proposta do atual curador dessa instituição cultural de gradear o espaço com o suposto intuito de garantir segurança aos frequentadores do museu.

Em outros termos, propõe-se implantar no vão livre a lógica mais recorrente da urbe em que vivemos: quão raros são os edifícios que não  têm um muro separando-os da rua ou qualquer aparato de vigilância para distinguir aqueles com poder de acesso. O gradeamento desse espaço no centro da avenida Paulista deve ser precedido de uma pergunta:  por mais que chamemos de vão livre do Masp, este lugar singular pertence ao museu ou é um espaço público da cidade de São Paulo?

Pouco importa qualquer prolongada argumentação estruturada no “jurisdiquês”, mas sim a maneira como historicamente a população dali se apropria. Sob este aspecto, é fácil concluir que o vão livre está indissociavelmente integrado ao tecido urbano, como um espaço de livre uso dos cidadãos.

Entretanto, é possível desdobrar tal argumento por meio de uma análise restritamente arquitetônica. O edifício concebido por Lina Bo Bardi, por um aspecto, contém uma estratificação muito forte. O campo de possibilidades contido no vão livre pouco se relaciona com o pavimento de apresentação do acervo permanente, e tais ambiências também ficam apartadas do que está no subsolo. O conjunto de dois elevadores e escadas concentrado em uma das extremidades da edificação (e de escala diminuta, se comparado ao todo) limita-se a um papel quase estritamente funcional, pois não foi fruto de alguma intenção articulatória que indicasse uma integração entre as diferentes partes. Ou seja, o Masp é flexível nas relações horizontais; entretanto, ele é muito rígido nas relações verticais. O vasto chão em paralelepípedo e o grandioso teto em concreto rude distinguem com veemência o vão livre do museu.

Feita a diferenciação, pode-se declarar que o vão livre é um espaço público por excelência.

Lina Bo Bardi recorria frequentemente à figura de John Cage para denominar o vão livre como a “arquitetura da liberdade”, local liberto à recepção de diferentes sensações pelo ser humano, sendo assim um lugar privilegiado para a percepção da vida, da coletividade, da metrópole paulistana, do mundo.

Isso esclarece o porquê do que ocorre no vão livre do Masp ser tão incômodo para alguns: ele explicita a cidade onde vivemos. O espaço é um “palco” que evidencia as virtudes e os problemas paulistanos. Aquilo que as reportagens apresentam como adversidade específica do lugar são, na verdade, recorrentes dificuldades da nossa sociedade. Quantas são as calçadas que se tornaram abrigo para moradores sem oportunidade de uma moradia? Não existem pontos de tráfico de drogas por todos os lados? O vão revela o contínuo fracasso dos programas sociais de um Estado ainda incapaz de dar suporte à população. Ali, os problemas da cidade tornam-se mais difíceis de digerir.

Neste monumento nada afeito à higienização em prol da turistificação, o ato de gradear será a morte do Masp. Acabarão com a liberdade do vão livre: o vazio impregnado de possibilidades ao ser humano (o afeto, o ócio, o lúdico) e o lugar ideal onde podemos protestar contra as mazelas sociais de nossa jovem república, sem que este aparelho estatal tenha um ponto privilegiado para vigiar e impor suas proibições. Por isso, aos que se incomodam com os supostos problemas no vão livre, a maneira de contribuir para “resolvê-los” é mantê-lo aberto.

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Publicado originalmente na revista digital Minha Cidade do portal Vitruvius
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/14.160/4968

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Entrevista com Camila Thiesen e vencedores do concurso da nova Biblioteca da Universidade de São Paulo

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Na noite de 12 de agosto, dezenas de escritórios de arquitetura estavam na expectativa das notícias a serem transmitidas no aristocrático Salão Nobre na Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco. O concurso para a nova Biblioteca da Universidade mobilizou parte considerável da classe arquitetônica e fomentou diversas discussões nos últimos meses.

Das 114 equipes que se inscreveram, 96 trabalhos foram entregues, índice alto, considerada a média dos concursos nacionais de arquitetura. O júri responsável pela seleção dos premiados era um dos mais respeitáveis que se teve em seleções do gênero nos últimos anos. Era grande o respaldo dos tantos arquitetos que se propuseram a pensar este importante futuro equipamento público da cidade de São Paulo, sabendo que a escolha seria feita por pessoas tão experientes e consagradas como Eduardo de Almeida – que fez um notável discurso introdutório nessa cerimônia de divulgação -, Renata Semin, André Vainer, José Oswaldo Vilela e Marcelo Morettin.

Após os discursos dos responsáveis pela promoção e organização do concurso, iniciou-se a apresentação dos projetos selecionados e a abertura dos envelopes com os nomes dos premiados. Começou com um destaque, seguiu com três menções honrosas – a cada equipe anunciada, percebia-se que menos arquitetos premiados do que era de se esperar estavam presentes no salão -, prosseguiu com terceiro, segundo e anuncia-se: a vencedora é Camila da Rocha Thiesen! Grande parte dos presentes deve ter se perguntado no mesmo instante: quem é Camila da Rocha Thiesen?

Depois de olhar em torno e ter certeza de que ela não estava ali, veio a informação, seguinte aos nomes dos coautores, de que a equipe era de Porto Alegre. Ato contínuo, comentei com a amiga sentada ao meu lado que achava não ser o nome da arquiteta do Studio Paralelo. Naquele momento, confesso não ter lembrado outro escritório gaúcho que poderia ser o responsável. Celulares e tablets à mão: caro Google, quem é Camila da Rocha Thiesen? Minutos após, a mesma amiga sentada ao lado me envia um SMS: “Metropolitano Arquitetos é o escritório do 1º lugar”. Mistério desvendado em parte.

A curiosidade para saber quem eram os sete integrantes permaneceu já que não eram muitas as informações disponíveis na internet sobre eles. Na manhã seguinte, enviei uma mensagem via facebook para Camila, pedindo para realizar esta entrevista. Hora depois, a jovem arquiteta responde aceitando o convite. Durante três dias, troquei emails com os sete autores. Nas páginas que se seguem, o portal Vitruvius tem o prazer de apresentar os arquitetos dos escritórios Metropolitano Arquitetos, arquitetura pela rua e studioLAM, que serão os responsáveis pela Nova Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

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Leia a entrevista no portal Vitruvius
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/14.055/4836

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A exposição que não trata Lina Bo Bardi como memória

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Crítica sobre a exposição The insides are on the outside / O interior está no exterior. Casa de Vidro / Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, São Paulo, de 05 de abril a 26 de maio de 2013.

“Trazer a vida de volta a Casa de Vidro”. A afirmação feita pelo curador suíço Hans Ulrich Obrist, na abertura da exposição “the insides are on the outside / o interior está no exterior”, sintetiza sua proposta de ocupação da residência projetada pela arquiteta Lina Bo Bardi.

Tal como explicitado em seu título, a exibição parte da relação de transparência entre a interioridade da residência que Lina Bo projetou para si e seu marido, o crítico e historiador Pietro Maria Bardi, e a exterioridade composta pela densa e vigorosa vegetação tropical. A exposição ocupa a casa e seu terreno, expandindo-se pela cidade por meio das instalações implantadas no Sesc Pompéia.

As obras são, em primeira análise, intervenções site specific, ao serem proposições que se fundamentam e se constituem de acordo com as características do lugar ao qual se inserem. Nessa mostra, os edifícios são os parâmetros iniciais a serem reinterpretados e reinventados por meio da arte contemporânea. Tornam-se palco para especulações artísticas, provocador de fricções, possibilitador de sensações, propulsor de novas ideias.

Contudo, esse conceito se amplia a partir do que Obrist destaca em seu texto curatorial: “Os participantes foram convidados a uma imersão no mundo de Lina Bo Bardi”. O conjunto de obras vai além de um retrato da maneira como os artistas reagem ao contexto físico e ao desenho arquitetônico da Casa de Vidro e do Sesc. Cria-se uma rede de relações estruturada na busca por novas interpretações do espírito de toda a obra de Bo Bardi, enquanto agente cultural no Brasil pós-guerra. Os aspectos físicos do local se mantêm como pressupostos, entretanto as tramas que estruturam as proposições ampliam-se com narrativas e conceitos provenientes da figura da arquiteta, impulsionando suas potencialidades estéticas e sua força enquanto arte.

As estratégias para a apropriação dessas questões são variadas. Por um meio estritamente sonoro, sob o pilotis da Casa de Vidro, Paulo Mendes da Rocha conta a história da chegada de Bo Bardi ao Brasil. No salão da Casa, um conjunto de intervenções artísticas para a mostra mescla-se à profusão dos objetos e obras de arte que evocam as memórias e representam a construção da narrativa própria dos Bardi. Neste grande aposento, destacam-se o aroma e o som de fundo – “Lina, va fare un caffè” -, na obra de Cildo Meireles, reconstituindo a frequente cena do casal. Ali também vemos as caricaturas feitas por Alexander Calder, a proposta feita pela dupla japonesa Kazuyo Sejima and Ryue Nishizawa (Sanaa) para o mobiliário da biblioteca, e o jogo de transparência e reflexão que Olafur Eliasson propõe a partir da estrutura do painel de vidro do projeto expográfico original do Masp. A exposição também ocupa a parte mais íntima da Casa com Waltercio Caldas no quarto do casal, Koo Jeong-A na cozinha e a “mobília” de Rivane Neuenschwander espalhada pela residência e mimetizada aos outros objetos. Pelo jardim, encontramos obras de Dominique Gonzalez-Foerster, Cristina Iglesias, Pedro Reyes. A obra de Ernesto Neto encontra interessante relação por entre as passarelas dos edifícios do Sesc Pompéia, polarizando a ambiência do solário com a instalação de Dan Graham.

A visita ao conjunto das obras mostra o quão bem sucedido foi Hans Ulrich Obrist na sua proposta de “Trazer a vida de volta a Casa de Vidro”. Ao apropriar-se e compreender criticamente a história de Lina Bo Bardi e a espacialidade dos edifícios, restitui-se a esses lugares sua configuração enquanto campos imaginativos para os dias atuais e para o futuro. No papel de centro irradiador para a arte contemporânea, a Casa de Vidro (e a própria figura de Lina Bo Bardi) deixa de ser tratada como um memorial para tornar-se um laboratório de proposições.

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Publicado originalmente na revista digital Arquiteturismo do portal Vitruvius, junto com vídeo e imagens de Helena Guerra
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/07.074/4711

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Brasília: Antologia Crítica

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Resenha do livro “Brasília: Antologia Crítica” (2012), organizado por Alberto Xavier e Julio Katinsky, publicado pela editora Cosac Naify.

Terceiro livro da trilogia de Brasília na Cosac Naify e mais recente título da coleção Face Norte, Brasília: Antologia crítica, organizado pelos professores Alberto Xavier e Julio Katinsky, é uma compilação de 67 textos sobre a capital federal brasileira, produzidos por distintos autores ao longo do tempo de existência da cidade. A grande variedade de textos – escritos por ensaístas, arquitetos, urbanistas, engenheiros, historiadores, sociólogos, políticos, escritores etc. – mostra o quanto Brasília suscita incômodo e encantamento àqueles que se propõem a refletir sobre ela.

Organizada segundo uma lógica cronológica, esta antologia revela o mesmo estudo de caso a partir de distintos enfoques dos observadores, de acordo com questões prementes a cada época. A divisão do conjunto de textos é feita em cinco blocos e tem como principais cortes temporais o ano em que se instituiu a ditadura militar (1964) e o reconhecimento de Brasília como Patrimônio da Humanidade pela Unesco (1987).No centro quase inóspito do país implantou-se Brasília, cidade que reivindicou para si a identificação como monumento civil da modernidade no imaginário coletivo. Projetada e fundada há pouco mais de cinquenta anos com a função de substituir o Rio de Janeiro como nova capital do Brasil, sua concepção é fruto de uma estratégia do Estado brasileiro de criar uma cidade que encarnasse e simbolizasse a renovação política, econômica e cultural: a imagem do futuro, expressão de uma nova tradição e da nova identidade nacional perante os próprios brasileiros e o mundo. A cidade, implantada para ser polo de atração e desenvolvimento no interior do Brasil, revertendo a lógica de ocupação restrita à faixa próxima ao litoral, foi, também, a tabula rasa tão almejada pelos modernos da primeira metade do século xx, cuja crença residia na transformação da sociedade por meio da arquitetura e do projeto urbano.

O primeiro bloco de textos, “Os projetos e a crítica (1956-64)”, é constituído por registros do período de construção da capital e sua inauguração, com posturas que variam entre a esperança e o ceticismo da empreitada que transcorria no planalto central. O debate e as reflexões giravam em torno da política de desenvolvimento nacional, que tinha o deslocamento da capital como principal motor das transformações sociais esperadas, do concurso para escolha do plano da construção, com seus custos econômicos, da grande migração de trabalhadores para o gigantesco canteiro de obras que era Brasília e das impressões iniciais da primeira grande urbe constituída a partir dos fundamentos modernos elaborados nos quarenta anos que precederam sua existência. Os escritos de Mário Pedrosa, Bruno Zevi, Sigfried Giedion, Alberto Moravia, Max Bense, Lina Bo Bardi e Milton Santos, entre outros, retratam bem a reação imediata ao peculiar momento histórico de grandes transformações que se davam no Brasil.

Em tom de resposta às críticas que recebiam, a parte seguinte da publicação, “Pronunciamento dos autores”, corresponde ao posicionamento dos autores que protagonizaram a invenção de Brasília. Juscelino Kubitschek, numa escrita em forma de discurso político envolvido de teor quase místico, reitera e esclarece os argumentos que justificaram e viabilizaram a transferência da capital. A explicação de Lucio Costa, autor do projeto urbano da cidade, defende os pontos que desenvolveu na ”Memória descritiva do plano piloto”, apresentada na ocasião do concurso. Sua franca filiação aos princípios urbanísticos modernos, com ênfase em matriz de pensamento lançada por Le Corbusier, mas conjugada a um elaborado senso pessoal com relação à questão da monumentalidade, fundamentada em diversas referências de períodos históricos mais remotos, confere certo lirismo ao projeto. Finalizam este bloco dois importantes depoimentos de Oscar Niemeyer, que, para além das justificativas projetuais para seus edifícios em Brasília, expunha abertamente um momento de reflexão pessoal sobre modificações em seu modo de projetar e contribuir para a sociedade, muito impactado pelo que experimentava no canteiro de obras da capital federal.

A seção seguinte do livro, “A consolidação da cidade (1964-87)”, retrata o período da ditadura militar e o da democratização do país, que coincidem com estabelecimento e fortalecimento da crítica pós-moderna na arquitetura. Começam a se observar com maior clareza as similitudes e diferenças entre o plano elaborado por Lucio Costa e a cidade em implantação. Problemas como o surgimento das cidades satélites são explicitados, expondo a limitação do projeto moderno como transformador da estrutura da sociedade perante as desigualdades sociais. Clarice Lispector sobressai na reflexão poética acerca das incertezas e complexidade próprias a uma cidade concebida para determinado futuro mas cujo processo de crescimento fugia à ordem preestabelecida no seu plano original.

O penúltimo bloco, “Brasília estabelecida”, toma a cidade em termos simbólicos, habitacionais e de patrimônio. Das reflexões de Umberto Eco sobre o que a cidade prometeu e o que de fato é como símbolo – “da cidade socialista que deveria ser, Brasília tornou-se a própria imagem da diferença social” –, passando pelas inúmeras especulações sobre o vanguardismo da ideia de superquadra e unidade de vizinhança (e os problemas que vêm junto), este bloco finda com a celebração de Brasília como Patrimônio – da explicação do parecer de defesa de Italo Campofiorito à provocação de James Holston, segundo o qual o tombamento congela a melhor característica da cidade: sua vontade de constante inovação, o “espírito de Brasília”.

A última parte é composta por um olhar contemporâneo para a cidade, cujo distanciamento permite ver Brasília como um fato consumado, arrefecendo certas posições politicamente apaixonadas, e, como no texto de Adrián Gorelik, inserindo a cidade e explicando seu papel na história da arquitetura moderna brasileira. Aqui também podemos encontrar textos como o de Sylvia Ficher, que priorizam a situação atual do Distrito Federal, ou como o de Sophia S. Telles, que parecem inventar novas qualificações para aspectos da concepção original implementada no plano piloto.

Brasília: Antologia crítica não se pretende uma compilação conclusiva ou definitiva para a discussão em torno da cidade. Contudo, ao oferecer uma rica e significativa reconstrução de um conjunto de reflexões sobre Brasília ao longo do tempo, exprime amplamente as virtudes e os problemas do plano original e as contradições contidas na complexa realidade da capital do país, contribuindo, assim, para expandir o debate sobre questões prementes à sociedade brasileira e à arquitetura nacional e internacional a partir da cidade que ambicionou transformar essas estruturas.

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Publicado originalmente na revista digital Resenhas Online do portal Vitruvius e outras publicações
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/12.136/4731

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Da peça de andaime, um pavilhão

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Prêmio APCA 2012 – Categoria “Revelação” – Carla Juaçaba / Pavilhão Humanidade 2012

Anos atrás, em uma entrevista, Carla Juaçaba afirmava: “O material não é uma escolha secundária, é uma escolha primeira. Deve-se pensar um projeto a partir da matéria que você escolheu” (1). Tal afirmação é extremamente esclarecedora, se analisamos cada obra elaborada pela jovem arquiteta carioca, sobretudo o pavilhão Humanidade.

Feito em parceria com Bia Lessa, o projeto partia da premissa que, para a ocasião do evento Rio+20, era necessária a construção de uma grande edificação efêmera para abrigar exposições, seminários e oficinas que abordavam a temática do meio ambiente. Faz-se compreender pela brevidade da existência do edifício o motivo pelo qual o projeto se fundamentou no uso de andaimes.

Esse elemento construtivo pré-fabricado é largamente utilizado para a criação de estruturas temporárias na indústria brasileira de produção de eventos, que podemos considerar razoavelmente desenvolvida e que já contém modelos pré-organizados de montagem, como em palcos para apresentações e galpões para encontros.

Entretanto, Carla Juaçaba fugiu da pura aceitação do modelo pré-concebido de galpão, buscando, como a própria arquiteta afirma, “conhecer e respeitar a natureza dos materiais” (2). Houve um cuidadoso estudo tectônico na articulação das peças, nos modos de montagem e desmontagem, no cálculo estrutural geral, nas estratégias de transporte para locar tal estrutura naquele sítio. Para valorizar esse trabalho de concepção e execução, a arquiteta não escondeu o elemento construtivo atrás de algum tecido tensionado. Juaçaba optou por expor o andaime, explorando seu potencial estético.

Percebe-se isso quando se cumpria apromenade “interior”, composta por rampas por meio à estrutura expostas às variações climáticas, acentuadas pelo fato de estar rodeado pelo Atlântico em quase todo perímetro da edificação. A orla, a cidade e as montanhas da capital fluminense podiam ser admiradas, entre os andaimes, por ângulos nunca antes vistos. Caixas fechadas em meio à profusão estrutural abrigavam as salas expositivas, auditórios e biblioteca.

O grandioso objeto arquitetônico é especialmente impactante por ter, de fato, transformado uma imagem tão marcante da paisagem carioca: o Forte de Copacabana esteve, por cerca de um mês, sob um pavilhão de 170 metros de comprimento, por 40 metros de largura e 20 metros de altura.

O pavilhão Humanidade foi uma espécie de Crystal Palace (3) do Rio de Janeiro do século 19. Carla Juaçaba concretizou a mais instigante edificação produzida pela arquitetura carioca dos últimos anos.

Tão rápido quanto seu aparecimento, foi sua desmontagem. Acreditando na possibilidade de reaproveitamento, que segue a lógica de respeito ecológico do evento em questão, é provável que suas peças estruturais passaram a escorar várias construções da metrópole carioca neste momento de olímpicas transformações.

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notas

1
PERROTTA-BOSCH, Francesco et al (Org.).Entre – Entrevistas com arquitetos por estudantes de arquitetura. Rio de Janeiro, Viana e Mosley, 2012, p. 94.

2
Idem, ibidem, p. 94.

3
Referência ao projeto do Palácio de Cristal, de Joseph Paxton, feito para a ocasião da Grande Exposição de 1851, no Hyde Park de Londres.

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Publicado originalmente na revista digital Drops do portal Vitruvius
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/13.063/4621