Reversíveis Equipamentos

Meio templo, meio hangar. Assim, a Arena da Juventude remete, concomitantemente, ao classicismo e à indústria. Externamente, a configuração assemelha-se a de um templo grego: uma sequência de delgadas colunas metálicas circunda a área fechada do ginásio, conformando um peristilo contemporâneo. Entretanto, no seu comedimento de elementos, é possível associar o novo equipamento olímpico a um grande galpão, constituído por elementos industriais pré-fabricados, alguns deles encontráveis em catálogos de materiais de construção, e que, por fim, resultaram em uma obra de rápida montagem e execução.

Distante do epicentro do megaevento global do agosto próximo (o Parque Olímpico da Barra da Tijuca) e sem alarde na cobertura da imprensa acerca da preparação dos Jogos, há algo de surpreendente ao avistar a Arena da Juventude às margens da Avenida Brasil carioca. Para quem passa de carro, o elegante e austero edifício é um prenúncio de transformações da pouco cuidada Zona Oeste do Rio. Com projeto do escritório Vigliecca & Associados, a Arena está na parte central do Parque Olímpico de Deodoro, que também conta com o Parque Radical e os Centros Olímpicos de Hipismo e de Tiro Esportivo.

Leia na íntegra na AU 266 (maio 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/266/olimpiada-2016-arena-da-juventude-e-centro-de-hoquei-por-370306-1.aspx

Sereníssimo Refúgio

escrito com Clara Varandas Abussamra

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Reúne o material. Encaixa as peças. Monta a casa. Coloca na caçamba do caminhão. Parte da pequena fábrica nos arredores de Montevidéu. Carrega a residência por mais de uma centena de quilômetros pelas estreitas estradas uruguaias. E encontra a paisagem suavemente ondulada de Finca Aguy.

Destoando das constantes planícies campestres que predominam na geografia do Uruguai, essa região de tênues serras e pedras está sendo descoberta para o veraneio. Esse plácido cenário natural a 12 km do vilarejo mais próximo – Pueblo Éden – foi escolhido para ser o lugar de reunião de uma família argentina, que tem cada membro residindo em um diferente canto do mundo. Nesse refúgio viram a possibilidade plantar oliveiras e iniciar uma pequena produção de azeite.

Leia na íntegra na AU 265 (abril 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/265/residencia-pre-fabricada-e-montada-em-dois-dias-no-interior-do-368862-1.aspx

O professor prático

É extremamente interessante quando arquitetos com tantos notáveis projetos vão para os círculos acadêmicos a fim de transmitir sua experiência aos alunos. Costumeiramente, vê-se com bons olhos a presença de arquitetos da prática compondo a lista de membros do corpo docente de uma universidade. A priori, esta é a informação de grande valor para apresentar o arquiteto espanhol Juan Herreros, sócio-fundador do Estudio Herreros e professor das Universidades de Madri e de Columbia, em Nova York. Entretanto, a questão-chave está presente na sua afirmação: “Os projetos dos meus alunos não se parecem com o que produzo no meu escritório.” A frase é tão óbvia quanto estranha para os corpos docentes de várias faculdades de arquitetura brasileiras. Para Herreros dar aulas não é doutrinar, não é a sobreposição do desenho do professor em cima do que é feito pelo aluno. O ensino é associado ao diálogo.

Dialogo que Juan Herreros se dispôs a ter com a revista AU durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, em companhia de seus alunos da Universidade de Columbia, para a comemoração dos cinco anos do Studio X e a abertura da exposição “Lutar, Ocupar, Resistir. As alternativas habitacionais dos movimentos sociais”. Nesse conversa, Herreros enfatiza a importância da ideia de híbrido: a mescla de programas, funções, períodos históricos e classes sociais nos edifícios e cidades. Tendo projetado em locais tão diferentes quanto Coréia do Sul, Panamá, Noruega, Marrocos, Colômbia, o arquiteto espanhol também explica o que entende por prática global. Prossegue questionando a “mistificação do detalhe construtivo” e reconhecendo as virtudes da matéria industrial, o que o faz contrapor-se ao “entendimento épico da prática da arquitetura” na qual o arquiteto deve intervir em cada centímetro. Assim, Herreros alerta sobre o papel do arquiteto na contemporaneidade: projetar e construir não são o suficiente.

Leia na íntegra na AU 265 (abril 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/265/juan-herreros-sobre-o-ensino-a-pratica-e-a-cidade-370131-1.aspx

Edifício-rio

Os arredores da cidade de Nova York possuem escapes fundamentais quando se quer apreciar arte e cultura. Desde o segundo semestre de 2015, é preciso adicionar o Grace Farms à lista que inclui os imperdíveis Dia Beacon e Storm King, voltados para a arte contemporânea.

Cerca de uma centena de quilômetros ao norte de Manhattan, a nova instituição cultural chama atenção, por um lado, pelo projeto arquitetônico do celebrado escritório nipônico Sanaa; por outro, por um programa de atividades diverso que propõe, para além do contato do público com obras de arte excepcionais, encontros por meio de palestras, cursos, cerimônias místicas, prática de esportes ou reuniões comunitários.

No Grace Farms, a leve e delicada arquitetura da dupla Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa encontra a bucólica paisagem natural de New Canaan, no estado de Connecticut. A presença da construção é determinada pela sinuosa cobertura que acompanha as declividades da topografia campestre, tal como o Sanaa antecipou no pavilhão temporário da londrina Serpentine Gallery de 2009.

Leia na íntegra na Bamboo 57 (abril 2016)
http://bamboonet.com.br/posts/projeto-do-sanaa-abriga-novo-centro-cultural-proximo-a-nova-york-que-reune-arte-natureza-e-comunidade

Lutar Ocupar Resistir: as alternativas habitacionais dos movimentos sociais

curador Pedro Rivera
curadores-adjuntos Francesco Perrotta-Bosch e Priscila Coli
pesquisa Axelle Dechelette

exposição no Studio X Rio de Janeiro entre 15 de março e 14 de maio de 2016

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Na virada do milênio, a antiga fábrica de leite CCPL foi ocupada por famílias vindas de favelas próximas ou conjuntos habitacionais distantes daquela área da Zona Norte. Havia lá uma áspera inteligência na implantação de improvisadas instalações e na distribuição das moradias, espaços coletivos, equipamentos sociais e comércio. O que despontava como uma alternativa urbana demandava uma estruturação que nunca ocorreu: o prédio industrial foi demolido, dando lugar a um pouco inspirador conjunto Minha Casa Minha Vida (MCMV).

Em 2001 foi sancionado o Estatuto das Cidades, lei federal que regulamenta a função social da propriedade. Entretanto, tais normativas não se efetivam, escancarando que o problema habitacional e o justo acesso à cidade são questões ainda longe de uma solução. Desde então, as ocupações se espalharam pelo Brasil. Os movimentos sociais de moradia fortaleceram suas ideias e sua organização com processos participativos que, por vezes, envolveram arquitetos e urbanistas.

Enquanto, em grande medida, a discussão pública sobre habitação perdura concentrando seu foco nas favelas e no MCMV, as ocupações emergiram como uma alternativa de moradia coletiva que responde diretamente aos problemas urbanos nacionais. Parte da iniciativa Housing the Majority da rede global Studio-X, a exposição Lutar, Ocupar, Resistir: As Alternativas Habitacionais dos Movimentos Sociais trata deste controverso tema, visando compreender esses processos e como eles podem instruir no planejamento e na construção das urbes.

Nesta exposição apresentamos as entrevistas completas com os líderes Guilherme Boulos (MTST), André de Paula (FIST), Elisete Napoleão e Maria das Lurdes Lopes (MNLM-RJ), revelando estratégias e análises gerais de movimentos. Em seguida, temos as entrevistas com os arquitetos responsáveis por projetos participativos nas ocupações Dandara (Belo Horizonte, MG), Hotel Cambridge (São Paulo, SP), Mariana Crioula (Rio de Janeiro, RJ) e a Comuna Urbana Dom Hélder Câmara (Jandira, SP).

Não é fortuita a priorização do uso de fontes primárias. Pretende-se informar a respeito de ações e métodos de movimentos de habitação popular, de modo a oferecer ao leitor a liberdade e responsabilidade de formular sua própria opinião sobre esta questão latente nas cidades brasileiras.

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Veja mais no site do Studio-X Rio de Janeiro
http://studioxrio.org/pt/events/fight-squat-resist-the-housing-alternatives-of-social-movements

Leia o tabloide com o conteúdo da exposição
https://goo.gl/a7eNH0

O ensinamento africano

Diébédo Francis Kéré desperta um duplo encantamento: por sua história de vida e por sua arquitetura. Nasceu no vilarejo Gando, no interior de Burkina Faso, país com o sexto pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dentre todos os membros da ONU. Primogênito do líder da aldeia, foi o único dos irmãos que teve direito a frequentar uma escola – a mais próxima ficava a cerca de 40 quilômetros de distância de sua casa. Para poder fazer o curso superior, foi obrigado a se mudar para muito mais longe: Kéré obteve uma bolsa para estudar arquitetura e engenharia na Universidade Técnica de Berlim, na Alemanha, cidade onde fundou e mantém seu escritório.

A lonjura geográfica não o deixou indiferente à escassez do lugar de origem. Sua expectativa com a profissão era dar um retorno aos tantos conterrâneos que permaneceram no povoado da África Ocidental. Ainda estudante universitário, em 1998, criou uma fundação para captação de recursos para a construção de uma escola primária em Gando. Finalizada em 2001, ela deu às novas gerações a oportunidade que Kéré teve na juventude.

“A arquitetura pode trazer muito para uma comunidade como a minha”, afirma Kéré. “Quando comecei a construir no meu lugar, as pessoas não sabiam o que significava arquitetura. Elas têm seus recursos, mas não sabem como utilizá-los. Então, a arquitetura opera como um chamado de alerta.”

Leia na íntegra na Bamboo 56 (março 2016)
http://bamboonet.com.br/posts/nascido-em-um-lugarejo-sem-eletricidade-ou-agua-tratada-diebedo-francis-kere-cursou-o-ensino-superior-em-berlim-e-se-tornou-um-expoente-exemplar-da-arquitetura-social

Destacar-se do solo, proteger-se do sol

À sombra de estridente polêmica ambiental que envolveu a escolha do sítio, jornais e revistas não perceberam a notável arquitetura que ali surgia. Comparada à imensidão da planície que a envolve, é comedida a dimensão da sede do campo de golfe das Olimpíadas do Rio de Janeiro. É a escala correta para uma edificação que se permite ser atravessada pela paisagem exuberante: não somente o vento que a corta livremente, mas o olhar permanece desimpedido para admirar o gramado entremeado por pequenas dunas e circundado pelo manguezal que o separa da lagoa de Marapendi. O que vemos é uma espécie de miragem da Barra da Tijuca idealizada por Lucio Costa: a planície natural a perder de vista – é verdade que em um estado menos selvagem do que o imaginado por nosso mestre – e um aglomerado de edifícios altos brotando ao longe nessa baixada.

Leia na íntegra na edição 263 da AU (fevereiro 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/263/rua-arquitetos-projeta-sede-do-campo-olimpico-de-golfe-no-367497-1.aspx

Monta, desmonta e remonta

As Olimpíadas duram uns quinze dias. Holofotes do mundo inteiro são lançados na cidade sede. Um mês após, há certa sobrevida desta animação com as Paraolimpíadas. Em seguida, acabou a festa; o palco deste mise-en-scène global precisa ser absorvido pelo cotidiano.

Se a cidade não incorporá-los, os equipamentos olímpicos se tornarão ruínas (vide Atenas). Quando a edificação perde a sua vitalidade, inevitavelmente geram-se resíduos: a obsolescência ou será da arquitetura como um todo, ou virá da desarticulação das partes convertidas em restos jogados ao relento, num vagaroso processo de decomposição em algum canto do mundo. A segunda alternativa para o fracasso da arquitetura olímpica é fazê-la desaparecer; o que, a princípio, depende do nada pacifico (nem isento de custos) ato de demolir. Como dotar uma estrutura olímpica de uma razão de existência após a cerimônia de encerramento?

A estratégia para a Arena do Futuro, no Rio de Janeiro, é de programar totalmente o seu ciclo de vida. Monta-se um ginásio que abrigará as competições de handebol e golbol dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016; findo os dois eventos, desmonta-se o edifício; e, nos meses seguintes, remonta-se, porém transfigurando-o em quatro escolas públicas municipais. Nobre e necessário destino para a tão questionável demanda estrutural do comitê olímpico: afinal, a aparente festa de todos os povos escancarou-se como o negócio e o lucro de alguns poucos, e um altíssimo custo para as populações locais. A sobriedade da estrutura da Arena carioca retrata uma consciência crítica dessa conjuntura, opondo-se ao espetáculo formal gratuito tão latente nos ginásios e estádios das Olimpíadas da década passada.

Leia na íntegra na edição 263 da AU (fevereiro 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/263/arena-do-futuro-recebera-jogos-de-handebol-na-olimpiada-e-367863-1.aspx

Arquitetura para a vida real

Reporting from the Front é um título esclarecedor. Reportar, o termo inicial, exprime o caráter jornalístico que dará o tom da seleção curatorial. Front até poderia ser lido pela índole belicista, contudo, refere-se aos fatos arquitetônicos que acontecem onde faltam recursos – o conflito relacionado à sobrevivência. Marcada para os dias 28 de maio a 27 de novembro, a 15ª Bienal de Arquitetura de Veneza assume a turbulência do mundo atual e pretende expor como a arquitetura se posiciona perante problemas, de fato, reais.

Em seu prólogo, o presidente da Bienal, Paolo Baratta, atentou para o “descompasso entre a arquitetura e a sociedade civil”. A crítica mira a arquitetura do espetáculo, que cria símbolos urbanos e globais de poder e se afasta das necessidades essenciais do ser humano. Nessa leitura, está em risco o reconhecimento da relevância da arquitetura como ciência capaz de dar respostas e soluções para questões prementes, pessoais e coletivas.

Leia na íntegra no anuário 2016 Bamboo (fevereiro 2016)
http://bamboonet.com.br/posts/com-curadoria-do-chileno-alejandro-aravena-a-15a-bienal-de-arquitetura-de-veneza-expoe-solucoes-para-os-problemas-do-mundo-atual

O risco de sacralizar o museu dessacralizado

Não foi Lina, mas sim Pietro que pensou o Masp como um “antimuseu” ou “contramuseu”. Ainda em 1951, no artigo Musées hors des limites (publicado na revista Habitat, número 4), Pietro Maria Bardi se posicionava contrariamente ao “empoeirado” e “velho museu do século XVIII”, hegemônico na Europa que largara cinco anos antes. Ao reivindicar “o momento de reformar os museus”, atentando para a “função educativa” e a capacidade de conter “múltiplas atividades” a fim de construir “de uma maneira viva a unidade fundamental das artes”, o intelectual italiano estabelecia a pauta do seu projeto institucional para o Masp, já em curso na primeira sede, na rua Sete de Abril, ocupando um andar do prédio dos Diários Associados no centro de São Paulo. Quando conclamava “não uma arquitetura-prisão mas uma arquitetura livre, com os interiores móveis”, doutor Bardi fundamentava o projeto arquitetônico definitivo do museu, que anos depois ficou a cargo de sua mulher, a arquiteta Lina Bo Bardi.

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Leia o ensaio no Blog do IMS:
http://www.blogdoims.com.br/ims/o-risco-de-sacralizar-o-museu-dessacralizado