Lutar Ocupar Resistir: as alternativas habitacionais dos movimentos sociais

curador Pedro Rivera
curadores-adjuntos Francesco Perrotta-Bosch e Priscila Coli
pesquisa Axelle Dechelette

exposição no Studio X Rio de Janeiro entre 15 de março e 14 de maio de 2016

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Na virada do milênio, a antiga fábrica de leite CCPL foi ocupada por famílias vindas de favelas próximas ou conjuntos habitacionais distantes daquela área da Zona Norte. Havia lá uma áspera inteligência na implantação de improvisadas instalações e na distribuição das moradias, espaços coletivos, equipamentos sociais e comércio. O que despontava como uma alternativa urbana demandava uma estruturação que nunca ocorreu: o prédio industrial foi demolido, dando lugar a um pouco inspirador conjunto Minha Casa Minha Vida (MCMV).

Em 2001 foi sancionado o Estatuto das Cidades, lei federal que regulamenta a função social da propriedade. Entretanto, tais normativas não se efetivam, escancarando que o problema habitacional e o justo acesso à cidade são questões ainda longe de uma solução. Desde então, as ocupações se espalharam pelo Brasil. Os movimentos sociais de moradia fortaleceram suas ideias e sua organização com processos participativos que, por vezes, envolveram arquitetos e urbanistas.

Enquanto, em grande medida, a discussão pública sobre habitação perdura concentrando seu foco nas favelas e no MCMV, as ocupações emergiram como uma alternativa de moradia coletiva que responde diretamente aos problemas urbanos nacionais. Parte da iniciativa Housing the Majority da rede global Studio-X, a exposição Lutar, Ocupar, Resistir: As Alternativas Habitacionais dos Movimentos Sociais trata deste controverso tema, visando compreender esses processos e como eles podem instruir no planejamento e na construção das urbes.

Nesta exposição apresentamos as entrevistas completas com os líderes Guilherme Boulos (MTST), André de Paula (FIST), Elisete Napoleão e Maria das Lurdes Lopes (MNLM-RJ), revelando estratégias e análises gerais de movimentos. Em seguida, temos as entrevistas com os arquitetos responsáveis por projetos participativos nas ocupações Dandara (Belo Horizonte, MG), Hotel Cambridge (São Paulo, SP), Mariana Crioula (Rio de Janeiro, RJ) e a Comuna Urbana Dom Hélder Câmara (Jandira, SP).

Não é fortuita a priorização do uso de fontes primárias. Pretende-se informar a respeito de ações e métodos de movimentos de habitação popular, de modo a oferecer ao leitor a liberdade e responsabilidade de formular sua própria opinião sobre esta questão latente nas cidades brasileiras.

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Veja mais no site do Studio-X Rio de Janeiro
http://studioxrio.org/pt/events/fight-squat-resist-the-housing-alternatives-of-social-movements

Leia o tabloide com o conteúdo da exposição
https://goo.gl/a7eNH0

O ensinamento africano

Diébédo Francis Kéré desperta um duplo encantamento: por sua história de vida e por sua arquitetura. Nasceu no vilarejo Gando, no interior de Burkina Faso, país com o sexto pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dentre todos os membros da ONU. Primogênito do líder da aldeia, foi o único dos irmãos que teve direito a frequentar uma escola – a mais próxima ficava a cerca de 40 quilômetros de distância de sua casa. Para poder fazer o curso superior, foi obrigado a se mudar para muito mais longe: Kéré obteve uma bolsa para estudar arquitetura e engenharia na Universidade Técnica de Berlim, na Alemanha, cidade onde fundou e mantém seu escritório.

A lonjura geográfica não o deixou indiferente à escassez do lugar de origem. Sua expectativa com a profissão era dar um retorno aos tantos conterrâneos que permaneceram no povoado da África Ocidental. Ainda estudante universitário, em 1998, criou uma fundação para captação de recursos para a construção de uma escola primária em Gando. Finalizada em 2001, ela deu às novas gerações a oportunidade que Kéré teve na juventude.

“A arquitetura pode trazer muito para uma comunidade como a minha”, afirma Kéré. “Quando comecei a construir no meu lugar, as pessoas não sabiam o que significava arquitetura. Elas têm seus recursos, mas não sabem como utilizá-los. Então, a arquitetura opera como um chamado de alerta.”

Leia na íntegra na Bamboo 56 (março 2016)
http://bamboonet.com.br/posts/nascido-em-um-lugarejo-sem-eletricidade-ou-agua-tratada-diebedo-francis-kere-cursou-o-ensino-superior-em-berlim-e-se-tornou-um-expoente-exemplar-da-arquitetura-social

Destacar-se do solo, proteger-se do sol

À sombra de estridente polêmica ambiental que envolveu a escolha do sítio, jornais e revistas não perceberam a notável arquitetura que ali surgia. Comparada à imensidão da planície que a envolve, é comedida a dimensão da sede do campo de golfe das Olimpíadas do Rio de Janeiro. É a escala correta para uma edificação que se permite ser atravessada pela paisagem exuberante: não somente o vento que a corta livremente, mas o olhar permanece desimpedido para admirar o gramado entremeado por pequenas dunas e circundado pelo manguezal que o separa da lagoa de Marapendi. O que vemos é uma espécie de miragem da Barra da Tijuca idealizada por Lucio Costa: a planície natural a perder de vista – é verdade que em um estado menos selvagem do que o imaginado por nosso mestre – e um aglomerado de edifícios altos brotando ao longe nessa baixada.

Leia na íntegra na edição 263 da AU (fevereiro 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/263/rua-arquitetos-projeta-sede-do-campo-olimpico-de-golfe-no-367497-1.aspx

Monta, desmonta e remonta

As Olimpíadas duram uns quinze dias. Holofotes do mundo inteiro são lançados na cidade sede. Um mês após, há certa sobrevida desta animação com as Paraolimpíadas. Em seguida, acabou a festa; o palco deste mise-en-scène global precisa ser absorvido pelo cotidiano.

Se a cidade não incorporá-los, os equipamentos olímpicos se tornarão ruínas (vide Atenas). Quando a edificação perde a sua vitalidade, inevitavelmente geram-se resíduos: a obsolescência ou será da arquitetura como um todo, ou virá da desarticulação das partes convertidas em restos jogados ao relento, num vagaroso processo de decomposição em algum canto do mundo. A segunda alternativa para o fracasso da arquitetura olímpica é fazê-la desaparecer; o que, a princípio, depende do nada pacifico (nem isento de custos) ato de demolir. Como dotar uma estrutura olímpica de uma razão de existência após a cerimônia de encerramento?

A estratégia para a Arena do Futuro, no Rio de Janeiro, é de programar totalmente o seu ciclo de vida. Monta-se um ginásio que abrigará as competições de handebol e golbol dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016; findo os dois eventos, desmonta-se o edifício; e, nos meses seguintes, remonta-se, porém transfigurando-o em quatro escolas públicas municipais. Nobre e necessário destino para a tão questionável demanda estrutural do comitê olímpico: afinal, a aparente festa de todos os povos escancarou-se como o negócio e o lucro de alguns poucos, e um altíssimo custo para as populações locais. A sobriedade da estrutura da Arena carioca retrata uma consciência crítica dessa conjuntura, opondo-se ao espetáculo formal gratuito tão latente nos ginásios e estádios das Olimpíadas da década passada.

Leia na íntegra na edição 263 da AU (fevereiro 2016)
http://au.pini.com.br/arquitetura-urbanismo/263/arena-do-futuro-recebera-jogos-de-handebol-na-olimpiada-e-367863-1.aspx

Arquitetura para a vida real

Reporting from the Front é um título esclarecedor. Reportar, o termo inicial, exprime o caráter jornalístico que dará o tom da seleção curatorial. Front até poderia ser lido pela índole belicista, contudo, refere-se aos fatos arquitetônicos que acontecem onde faltam recursos – o conflito relacionado à sobrevivência. Marcada para os dias 28 de maio a 27 de novembro, a 15ª Bienal de Arquitetura de Veneza assume a turbulência do mundo atual e pretende expor como a arquitetura se posiciona perante problemas, de fato, reais.

Em seu prólogo, o presidente da Bienal, Paolo Baratta, atentou para o “descompasso entre a arquitetura e a sociedade civil”. A crítica mira a arquitetura do espetáculo, que cria símbolos urbanos e globais de poder e se afasta das necessidades essenciais do ser humano. Nessa leitura, está em risco o reconhecimento da relevância da arquitetura como ciência capaz de dar respostas e soluções para questões prementes, pessoais e coletivas.

Leia na íntegra no anuário 2016 Bamboo (fevereiro 2016)
http://bamboonet.com.br/posts/com-curadoria-do-chileno-alejandro-aravena-a-15a-bienal-de-arquitetura-de-veneza-expoe-solucoes-para-os-problemas-do-mundo-atual

O risco de sacralizar o museu dessacralizado

Não foi Lina, mas sim Pietro que pensou o Masp como um “antimuseu” ou “contramuseu”. Ainda em 1951, no artigo Musées hors des limites (publicado na revista Habitat, número 4), Pietro Maria Bardi se posicionava contrariamente ao “empoeirado” e “velho museu do século XVIII”, hegemônico na Europa que largara cinco anos antes. Ao reivindicar “o momento de reformar os museus”, atentando para a “função educativa” e a capacidade de conter “múltiplas atividades” a fim de construir “de uma maneira viva a unidade fundamental das artes”, o intelectual italiano estabelecia a pauta do seu projeto institucional para o Masp, já em curso na primeira sede, na rua Sete de Abril, ocupando um andar do prédio dos Diários Associados no centro de São Paulo. Quando conclamava “não uma arquitetura-prisão mas uma arquitetura livre, com os interiores móveis”, doutor Bardi fundamentava o projeto arquitetônico definitivo do museu, que anos depois ficou a cargo de sua mulher, a arquiteta Lina Bo Bardi.

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Leia o ensaio no Blog do IMS:
http://www.blogdoims.com.br/ims/o-risco-de-sacralizar-o-museu-dessacralizado

Ação Coletiva

Causou alvoroço no meio artístico inglês o anúncio, em maio, de que um coletivo de arquitetos e designers concorreria ao prêmio Turner, a principal láurea da arte britânica, cujo vencedor, anunciado no dia 7 de dezembro, será agraciado com mais de R$ 140 mil. Nos 31 anos de existência da premiação, nunca uma proposta de natureza arquitetônica tinha sido sequer indicada. Entretanto, como o jurado Alistair Hudson afirmou, “em uma época em que tudo pode ser arte, por que não um conjunto habitacional?”.

Ele se referia ao Granby Four Streets, projeto do coletivo londrino Assemble, composto por 18 pessoas na faixa dos 30 anos. Abandonada pelo poder público na década de 1980, essa área de Liverpool ficou sem vitalidade por anos, depois que famílias e comerciantes desocuparam casas e lojas. A marcha de progressiva degradação reverteu-se nos últimos quatro anos, quando a associação de moradores tomou para si a incumbência de transformar as quatro ruas de Granby.

Desde estão, estão reformando dez residências vazias que antes pertenciam ao munícipio, remodelando espaços públicos e qualificando moradores (a mão-de-obra para essas transformações) e comerciantes (os empreendedores que multiplicarão oportunidades de trabalho a longo prazo). Para colocar tudo isso em prática, era necessária uma equipe que organizasse essas intenções, permanecendo prolongadamente no bairro para conversar com cada morador, treinar trabalhadores e pôr a mão na massa. Esse foi o trabalho do Assemble.

Leia na íntegra na Bamboo 54 (dezembro 2015)
http://bamboonet.com.br/posts/conheca-o-assemble-grupo-de-arquitetos-e-designers-ingleses-que-ao-revitalizar-espacos-urbanos-abandonados-esta-atraindo-os-olhares-da-cena-artistica-europeia